domingo, abril 26

O reaparecimento frequente de tartarugas-cabeçudas na Baía de Guanabara tem despertado a atenção de pesquisadores e pescadores artesanais, levantando novas questões sobre o comportamento da espécie, considerada ameaçada de extinção.

Desde 2024, o Projeto Aruanã vem registrando a presença cada vez mais comum desses animais no interior da baía. No último dia 18 de abril, dois exemplares foram capturados de forma acidental em currais de pesca, marcados por pesquisadores e devolvidos ao mar, um episódio considerado inédito do ponto de vista científico.

A tartaruga-cabeçuda, conhecida cientificamente como Caretta caretta, tem hábitos predominantemente oceânicos e costuma se alimentar de crustáceos, como camarões e lagostas. A presença recorrente em águas internas, como as da baía, ainda está sendo investigada.

Segundo a bióloga Larissa Araujo, registros antigos indicavam apenas aparições esporádicas. “Não havia dados sistematizados sobre a ocorrência da espécie no interior da baía. Desde 2025, esses registros aumentaram e passaram a incluir a entrada nos currais de pesca”, explicou.

A principal hipótese levantada pelos pesquisadores é a oferta de alimento. De acordo com os estudos iniciais, as tartarugas podem estar encontrando condições favoráveis para alimentação dentro da baía, o que explicaria a mudança de comportamento.

Para aprofundar o entendimento do fenômeno, o projeto prepara uma nova etapa de monitoramento com transmissores via satélite, que permitirá mapear rotas, tempo de permanência e áreas preferenciais utilizadas pelos animais.

Apesar do possível atrativo alimentar, a região ainda apresenta riscos significativos. A presença de poluição, tráfego intenso de embarcações, ingestão de resíduos sólidos e a captura acidental em redes de pesca são apontados como ameaças à sobrevivência das tartarugas.

A coordenadora do projeto, Suzana Guimarães, ressalta que ainda não é possível associar diretamente o retorno da espécie a uma melhora ambiental da baía. No entanto, ela destaca o valor dos registros. “Mesmo com os desafios, esses dados mostram que a baía mantém uma grande biodiversidade e certa capacidade de resiliência”, afirmou.

O monitoramento depende também da colaboração de pescadores e moradores, que informam avistamentos e auxiliam no resgate dos animais. Quando capturadas acidentalmente, as tartarugas passam por avaliação de saúde, coleta de dados e marcação antes de serem devolvidas ao habitat.

O tema ganhou repercussão recente com o caso de Jorge, um exemplar que viveu décadas em cativeiro na Argentina e foi devolvido ao mar. Após a soltura, o animal surpreendeu pesquisadores ao ser identificado na Baía de Guanabara, reforçando o interesse científico pela região.

Os novos registros fortalecem a importância de iniciativas de conservação e ampliam o conhecimento sobre a adaptação das espécies marinhas diante das transformações ambientais.

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