Em meio aos grandes estandes industriais da ExpoPIM, um projeto nascido no interior da Amazônia chamou atenção ao unir tradição ancestral e tecnologia. O designer indígena Sioduhi Waíkhun, natural de São Gabriel da Cachoeira, apresentou a Maniocolor, uma startup que transforma resíduos da mandioca em pigmentos naturais para a moda.
A proposta inovadora utiliza a casca da mandioca material que normalmente seria descartado para produzir corantes sustentáveis, aplicáveis na indústria têxtil. A iniciativa combina saberes tradicionais indígenas com técnicas científicas modernas, oferecendo uma alternativa ecológica à produção convencional.
Segundo Sioduhi, a ideia surgiu da necessidade de resgatar e valorizar conhecimentos ancestrais muitas vezes ignorados nos espaços acadêmicos e industriais. “A moda, antes de ser roupa, é comportamento. Nossos conhecimentos sempre estiveram ligados à sustentabilidade”, afirma.
O processo inicial da Maniocolor é artesanal, envolvendo a raspagem da entrecasca da mandioca e o cozimento a lenha. No entanto, a startup avança para uma nova etapa com apoio do Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT), que atua na modernização da produção.
A parceria tem permitido a introdução de técnicas como o banho ultrassônico, que melhora a extração dos pigmentos, além do desenvolvimento de novas tonalidades a partir de insumos regionais, como o crajeru e o acetato de ferro.
Para a equipe técnica, o desafio também envolve compreender uma lógica diferente de inovação. “Não queremos escalar por escalar. Queremos responsabilidade”, destaca o designer, ao reforçar a importância de respeitar os ciclos naturais e culturais.
A presença de Sioduhi na ExpoPIM também levanta reflexões sobre a participação indígena em grandes eventos de tecnologia e indústria na Amazônia. Apesar de representar um território com forte identidade indígena, ele foi uma das poucas vozes originárias no evento.
Para o designer, é fundamental enxergar a moda como um ecossistema completo, que envolve desde a extração da matéria-prima até a produção final, impactando diretamente a economia local.
Com o apoio técnico, a Maniocolor busca ampliar sua produção e consolidar um modelo sustentável de negócio, capaz de dialogar com o mercado sem perder suas raízes culturais.
Mais do que desenvolver corantes naturais, Sioduhi propõe uma mudança de perspectiva: mostrar que soluções para desafios globais, como sustentabilidade e inovação, podem estar presentes em conhecimentos tradicionais que resistem há séculos na floresta.
Sua participação na ExpoPIM reforça que a verdadeira inovação pode nascer da conexão entre ciência e ancestralidade, apontando novos caminhos para a moda brasileira e para o desenvolvimento sustentável na Amazônia.


