As escolas do povo Baniwa, no noroeste amazônico, estão transformando a educação indígena em um espaço de resgate cultural, autonomia e inovação. Unidades como a Escola Indígena Baniwa e Koripako Pamáali e a Escola Baniwa Eeno Hiepole aliam os saberes tradicionais da floresta à pesquisa científica e tecnológica, formando jovens que aprendem com o território e o cotidiano de suas comunidades.
O modelo é resultado de um movimento iniciado ainda no final da década de 1980, quando os Baniwa começaram a criar suas próprias escolas, após anos de imposição de sistemas coloniais e missionários que tentaram apagar suas línguas e costumes. Hoje, a educação nas aldeias baniwa segue a filosofia de “educar pela pesquisa”, inspirada no pensamento do sociólogo Pedro Demo, da Universidade de Brasília (UnB). “As escolas indígenas baniwa e koripako são vetores de reapropriação do território, da língua e da economia pelas comunidades”, explica o pesquisador Antônio Fernandes Góes Neto, da Universidade de São Paulo (USP), autor de um estudo sobre o tema.
As escolas desenvolvem currículos baseados nas práticas locais plantio, pesca, artesanato, história oral e medicina tradicional , sempre conduzidos em línguas indígenas como o baniwa, koripako e yẽgatu. Em muitas comunidades, os alunos produzem material didático a partir de entrevistas, trilhas e pesquisas sobre a floresta, a fauna e o modo de vida tradicional.
Essa nova forma de ensino fortalece também a economia local, com projetos que valorizam produtos regionais, como a pimenta jiquitaia, a cestaria tradicional e o turismo étnico, atividades que unem conhecimento ancestral e geração de renda.
A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), criada na década de 1990, foi essencial para consolidar esse modelo. Com sede em São Gabriel da Cachoeira, a Foirn representa 23 povos indígenas da região e atua em frentes como educação, cultura, saúde e defesa territorial.
Hoje, o ensino baniwa é reconhecido como um exemplo de inovação educacional sustentável, que une espiritualidade, língua, território e ciência. As escolas funcionam como verdadeiros laboratórios de invenção coletiva, nos quais o aprendizado se traduz em ação: construir saberes, preservar identidades e preparar as novas gerações para o futuro sem perder suas raízes. “Inovação, para os Baniwa, não é engenhoca — é ação coletiva para resolver problemas reais”, conclui Góes Neto.


