A aprovação do lenacapavir pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) marca um momento histórico na prevenção do HIV no Brasil, com a chegada da primeira profilaxia pré-exposição (PrEP) injetável de longa duração. Aplicada apenas duas vezes ao ano, a nova intervenção apresenta eficácia próxima de 100% segundo estudos científicos recentes, e promete reduzir significativamente as barreiras relacionadas à adesão ao tratamento.

Mais do que uma inovação farmacológica, a aprovação do lenacapavir representa um avanço estrutural na resposta brasileira à epidemia de HIV, ao ampliar o portfólio de opções preventivas disponíveis e flexibilizar o acompanhamento das pessoas em risco.

“A aprovação do lenacapavir injetável pela Anvisa é um marco porque representa uma mudança na forma como a prevenção do HIV pode ser feita no país”, afirma a infectologista Dra. Fabiane Giovanella Borges, Mestre em Doenças Tropicais e Infecciosas. Para a especialista, trata-se da primeira PrEP de ação prolongada reconhecida no Brasil, com aplicação semestral e eficácia extremamente elevada.

Até então, a principal ferramenta preventiva era a PrEP oral, é um comprimido diário que, embora eficaz, depende totalmente da adesão regular por parte do usuário. O lenacapavir, por sua vez, se diferencia por manter níveis protetores do medicamento no organismo por vários meses, reduzindo a necessidade de doses frequentes e o risco de falhas de uso.

Os ensaios clínicos que embasaram a aprovação demonstraram resultados tão consistentes que alguns estudos foram interrompidos antecipadamente pela clara superioridade da vacina injetável.

Segundo especialistas, a decisão da Anvisa tem importância que vai além da tecnologia: trata-se de um avanço social e de equidade em saúde. “Em um país com desigualdades regionais e sociais profundas, oferecer alternativas além do uso diário de medicamentos é um passo fundamental para tornar a prevenção mais efetiva e inclusiva”, ressalta Dra. Giovanella.

A nova PrEP também aproxima o Brasil das mais recentes diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para prevenção do HIV, alinhando o país às práticas internacionais de maior eficácia e abrangência.

O que muda na vida das pessoas

Para usuários, a principal mudança está na simplificação do processo de prevenção. A PrEP injetável reduz a dependência da disciplina diária, um fator que frequentemente compromete a eficácia da versão oral. Além disso, a aplicação semestral tende a ser mais discreta para muitas pessoas que, por medo de estigma ou julgamentos, evitam o uso continuado de medicamentos.

Especialistas destacam que essa modalidade pode melhorar significativamente a qualidade de vida de quem vive em contextos sociais adversos ou com rotinas instáveis, e que enfrenta dificuldades emocionais ou práticas relacionadas ao uso diário de comprimidos.

Quem pode se beneficiar

Na clínica, o lenacapavir é especialmente recomendado para pessoas com alto risco de infecção e que têm dificuldade em manter a adesão à PrEP oral. Isso inclui indivíduos com rotinas irregulares, populações em situação de vulnerabilidade social e emocional, e jovens e adolescentes que concentram uma parcela importante das novas infecções no país.

Embora a praticidade seja um ponto forte, o acompanhamento médico continua essencial. Antes de iniciar ou reaplicar a PrEP injetável, é obrigatória a confirmação de resultado negativo para HIV. Também são necessários controles clínicos regulares e vigilância de possíveis efeitos adversos, que costumam ser leves e limitados ao local da aplicação.

A aprovação pela Anvisa não garante acesso imediato ao tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Para que a PrEP semestral seja ofertada na rede pública, serão necessárias etapas adicionais, incluindo avaliação pelo Ministério da Saúde, definição de diretrizes clínicas, planejamento logístico e formação de profissionais.

Especialistas alertam que, na Região Norte e outras áreas com desafios de infraestrutura, o acesso ainda pode esbarrar em desigualdades de informação, logística e custo.

Para Dra. Giovanella, a chegada do lenacapavir “nos coloca mais perto do controle das novas infecções”, mas não elimina a epidemia por si só. “Nunca tivemos tantas opções eficazes para prevenir o HIV como agora. Informação, acesso e acolhimento salvam vidas”, conclui.

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