Duas pescadoras artesanais brasileiras foram selecionadas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para integrar a lista das 100 Mulheres Heroínas dos Sistemas Agroalimentares e do Desenvolvimento Rural. Joana Rodrigues Mousinho, de Pernambuco, e Luena Maria Ferreira dos Santos, conhecida como Luena Pataxó, da Bahia, estão entre as homenageadas de uma iniciativa que recebeu mais de 600 indicações de 131 países.
O reconhecimento destaca mulheres que contribuem para a segurança alimentar, a geração de renda, a inclusão social, a preservação ambiental e o fortalecimento das comunidades rurais.
Indicadas pelo Ministério das Mulheres, Joana e Luena integram o Fórum de Políticas Públicas de Autonomia Econômica e Cuidado com Mulheres da Pesca, Aquicultura Artesanal e Marisqueiras do Brasil. As duas participaram da cerimônia oficial de homenagem, realizada em 15 de outubro, na sede da FAO, em Roma, durante o Fórum Mundial da Alimentação e as atividades do Ano Internacional da Mulher Agricultora 2026.
Para o representante da FAO no Brasil, Jorge Meza, a escolha das brasileiras evidencia a importância das mulheres na transformação dos sistemas agroalimentares, na conservação dos recursos naturais e na valorização dos conhecimentos tradicionais.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, também destacou que a homenagem amplia a visibilidade das trabalhadoras da pesca artesanal e reforça a necessidade de garantir direitos, autonomia econômica e condições dignas de trabalho.
Mais de seis décadas dedicadas à pesca
Aos 70 anos, Joana Mousinho é uma das referências históricas da pesca artesanal brasileira. Natural de Pernambuco, começou a pescar ainda na infância e atua há mais de 60 anos no Canal de Santa Cruz, em Itapissuma, onde captura e comercializa peixes, camarões, mariscos e siris.
Ao longo da trajetória, tornou-se uma das primeiras mulheres do país a obter o Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) e a primeira mulher a presidir uma colônia de pescadores. Também participou da fundação da Articulação Nacional das Pescadoras, movimento voltado à defesa dos direitos e à valorização das mulheres que vivem da atividade.
Em 2024, Joana recebeu o Prêmio Mulheres das Águas, do Ministério da Pesca e Aquicultura, na categoria Pesca Artesanal em Águas Marinhas. Sua atuação também inclui a defesa das comunidades costeiras e dos territórios ameaçados por grandes empreendimentos.
Para a pescadora, o reconhecimento internacional representa um incentivo para que mais mulheres ocupem espaços de decisão e tenham seu trabalho valorizado.
Liderança indígena e fortalecimento das comunidades
Luena Pataxó, de 44 anos, é liderança indígena e presidente da Associação dos Pescadores Indígenas Pataxó (Apip), em Coroa Vermelha, distrito de Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia.
Ela também preside o Comitê de Relacionamento de Pescadores do Extremo Sul da Bahia, que reúne representantes de oito municípios e 13 associações. Sua atuação é voltada ao empreendedorismo, à valorização da cultura indígena e à criação de oportunidades econômicas para mulheres e famílias que dependem da pesca artesanal.
Sob sua liderança, a associação conquistou melhorias para os pescadores, ampliou parcerias e desenvolveu iniciativas relacionadas à segurança no mar e à geração de renda, especialmente com a pesca de camarão.
Luena também foi premiada pelo Sebrae Mulher de Negócios, conquistando o primeiro lugar na etapa estadual e o terceiro na nacional, na categoria Produtora Rural.
A liderança indígena afirma que recebe a homenagem em nome de sua comunidade e destaca a relação entre a pesca artesanal, a preservação ambiental e os conhecimentos tradicionais de seu povo.
Mulheres são essenciais para a segurança alimentar
A iniciativa da FAO reconhece mulheres de diferentes áreas, como agricultura, pesca, aquicultura, ciência, inovação, empreendedorismo rural e preservação ambiental.
Segundo a organização, as mulheres representam cerca de 41% da força de trabalho mundial nos sistemas agroalimentares e participam de diversas etapas da cadeia produtiva, da produção ao comércio. Apesar dessa contribuição, muitas ainda enfrentam condições precárias de trabalho, limitações de direitos e dificuldades de acesso a oportunidades.
Ao dar visibilidade a trajetórias como as de Joana Mousinho e Luena Pataxó, a iniciativa busca fortalecer o protagonismo feminino, incentivar a autonomia econômica e valorizar práticas sustentáveis que contribuem para o desenvolvimento rural e a segurança alimentar.

