O autor Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira, morreu neste sábado (10/01), aos 92 anos. Conhecido carinhosamente como Maneco, ele construiu uma obra marcada por histórias intimistas, ambientadas sobretudo no Rio de Janeiro, e por personagens femininas fortes, em especial as inesquecíveis Helenas que atravessaram décadas da televisão brasileira.
A morte foi confirmada pela produtora Boa Palavra, responsável pela administração de seus direitos autorais, em comunicado publicado nas redes sociais. Manoel Carlos lutava contra a doença de Parkinson. Segundo a nota, o velório será restrito a familiares e amigos próximos, sem cerimônia aberta ao público.
Nascido em São Paulo, Manoel Carlos iniciou sua trajetória na televisão ainda nos anos 1950. Em 1953, começou a trabalhar como autor e diretor do Grande Teatro Tupi, na extinta TV Tupi. Na mesma década, escreveu suas primeiras novelas para a TV Paulista, como Helena, Nick Chuck e Iaiá Garcia, esta última, uma adaptação do romance de Machado de Assis.
Ao longo dos anos 1960 e 1970, consolidou-se como um dos profissionais mais versáteis da TV brasileira, participando da criação e produção de programas históricos, como Família Trapo, O Fino da Bossa e o Fantástico. Em 1978, estreou como novelista da Globo com Maria, Maria e A Sucessora, esta última um grande sucesso que marcou época.
Foi nos anos 1980 que Manoel Carlos iniciou uma de suas maiores marcas autorais: a criação das “Helenas”. A primeira surgiu em Baila Comigo (1981), interpretada por Lilian Lemmertz. A partir daí, o autor transformou o nome em símbolo de mulheres complexas, sensíveis e contraditórias, sempre no centro de conflitos familiares e afetivos.
Sua carreira passou ainda por outras emissoras, como Manchete e Band, antes de um retorno definitivo à Globo no início dos anos 1990. A partir de então, vieram alguns dos maiores sucessos da teledramaturgia nacional, como História de Amor (1995), Por Amor (1997), Laços de Família (2000) e Mulheres Apaixonadas (2003). As novelas discutiram temas delicados para a época, como doação de órgãos, câncer, violência doméstica e relacionamentos homoafetivos, sempre com forte apelo emocional.
Manoel Carlos também se destacou fora do formato tradicional das novelas, como na minissérie Presença de Anita (2001), que causou impacto pelo tom erótico e pela personagem que marcou a carreira de Mel Lisboa.
Em seus últimos trabalhos, o autor enfrentou dificuldades de audiência. Viver a Vida (2009), que trouxe Taís Araújo como a primeira Helena negra, teve recepção negativa do público. Em Família (2014), sua última novela, encerrou sua trajetória na TV com críticas e baixos índices de audiência.
Desde então, Manoel Carlos vivia recluso no Rio de Janeiro, afastado da vida pública. Sua trajetória pessoal foi marcada por perdas dolorosas: três de seus cinco filhos morreram antes dele. O autor deixa duas filhas, Maria Carolina, roteirista, e Júlia Almeida, atriz presente em várias de suas novelas.
Com uma obra centrada nas emoções humanas, nos conflitos familiares e no cotidiano da classe média urbana, Manoel Carlos deixa um legado definitivo para a televisão brasileira. Suas histórias continuam sendo referência de sensibilidade, diálogo e profundidade emocional, marcas de um autor que transformou o cotidiano em drama e o drama em memória afetiva coletiva.

