A expansão da agropecuária tem avançado sobre territórios próximos a áreas protegidas da Amazônia, aumentando a pressão sobre regiões destinadas à conservação da vegetação nativa. Em 2025, a atividade ocupava 30,5% dessas áreas de entorno, segundo levantamento da Coleção 11 do MapBiomas, divulgado nesta quarta-feira (14/10).
O estudo reúne informações sobre a cobertura e o uso da terra no Brasil entre 1985 e 2025. Na Amazônia, a agropecuária ocupava aproximadamente 65,2 milhões de hectares no ano passado, dos quais 13,6 milhões estavam em áreas próximas a Unidades de Conservação, Terras Indígenas e territórios quilombolas.
Os dados também revelam o impacto da infraestrutura viária na ocupação do território. Segundo o levantamento, as áreas mais próximas às estradas concentram a maior parte das atividades agropecuárias, ampliando a pressão sobre os ecossistemas amazônicos.
Estradas facilitam a expansão das atividades econômicas
O levantamento identificou cerca de 618 mil quilômetros de vias na Amazônia, incluindo estradas que não integram a malha rodoviária oficial. A análise mostrou que, dos 157 milhões de hectares localizados a até cinco quilômetros dessas vias, 40,2% são ocupados pela agropecuária.
Isso representa aproximadamente 63 milhões de hectares, área equivalente a mais de 96% do território ocupado pela atividade em todo o bioma, conforme os dados apresentados pelo estudo.
À medida que aumenta a distância das estradas, diminui a participação da agropecuária na ocupação territorial. Nas áreas mais distantes, a atividade corresponde a 26,7% do território analisado.
Para o pesquisador Bruno Ferreira, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e integrante da equipe do MapBiomas Amazônia, a abertura de estradas pode facilitar o acesso a áreas de vegetação nativa e favorecer a conversão dessas regiões para outros usos.
Segundo o pesquisador, essa pressão pode ocorrer tanto no entorno quanto no interior de áreas protegidas, com a expansão da agropecuária, da mineração e de outras atividades econômicas.
Crescimento de 561% em 41 anos
O avanço da agropecuária nas proximidades das áreas protegidas foi expressivo ao longo das últimas quatro décadas. De acordo com o MapBiomas, a atividade cresceu 561% nesses territórios entre 1985 e 2025.
O resultado evidencia a transformação da paisagem amazônica e os desafios para conciliar atividades produtivas com a conservação ambiental, especialmente em regiões próximas a áreas legalmente destinadas à proteção da biodiversidade e dos recursos naturais.
A metodologia do estudo cruzou informações da Coleção 11 do MapBiomas com bases de estradas do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e do OpenStreetMap.
Amazônia perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa
O levantamento também atualizou os dados sobre o desmatamento no bioma. Em 2025, foram registrados 693 mil hectares desmatados na Amazônia, o menor volume da série histórica apresentada pelo estudo.
Desse total, 639 mil hectares correspondiam à vegetação primária, enquanto outros 54 mil hectares eram de vegetação secundária, que já havia sofrido intervenções anteriores e mantinha capacidade de regeneração natural.
Entre 1985 e 2025, a Amazônia perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa. Considerando também as áreas transformadas anteriormente pela ação humana, o território antropizado chegou a 74,6 milhões de hectares.
As formações florestais foram as mais afetadas no período, com perda de 49,7 milhões de hectares, uma redução de 14,8%.
Pastagens predominam na ocupação do território
Em 2025, a agropecuária ocupava cerca de 65,3 milhões de hectares da Amazônia, o equivalente a 15,5% do bioma, segundo os dados gerais apresentados pelo MapBiomas.
As pastagens destinadas à pecuária respondiam por 50,8 milhões de hectares, aproximadamente 12% do território. Já a agricultura ocupava 8,6 milhões de hectares, cerca de 2% da região.
A mineração também ampliou sua presença na Amazônia. Em 2025, a atividade ocupava 440 mil hectares, área 14 vezes maior que a registrada no início da série histórica, quando correspondia a 32 mil hectares.
Os números reforçam a dimensão das mudanças no uso da terra na Amazônia e destacam a importância do monitoramento da expansão das atividades econômicas, sobretudo nas regiões próximas a áreas protegidas.

