A BR-319 se destaca entre as rodovias da Amazônia pela preservação da floresta em seu entorno. Segundo dados da Coleção 11 do MapBiomas, a vegetação nativa ocupa 86% da área em um raio de 20 quilômetros da estrada, que liga Manaus a Porto Velho. O cenário contrasta com outras rodovias da região, onde a agropecuária tem maior presença.
Na BR-163, por exemplo, a atividade agropecuária ocupa 39% da área em um raio de 20 quilômetros. Na BR-364, o percentual chega a 43,5%.
O levantamento reúne mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil entre 1985 e 2025 e mostra como a proximidade das estradas está relacionada à ocupação do território e à transformação da paisagem amazônica.
Estradas favorecem expansão da agropecuária
De acordo com o estudo, a agropecuária ocupa 40,2% dos territórios localizados a até cinco quilômetros das estradas da Amazônia, o equivalente a 63 milhões de hectares. Quando a análise considera um raio de 20 quilômetros, a proporção cai para 26,7%.
A vegetação nativa apresenta o comportamento inverso: representa 56,7% da área próxima às estradas, em um raio de cinco quilômetros, e chega a 69,3% quando considerada uma distância de até 20 quilômetros.
A Amazônia possui cerca de 618 mil quilômetros de estradas identificadas em diferentes bases de dados. Desse total, aproximadamente 41,5 mil quilômetros estão dentro de áreas protegidas do bioma.
O pesquisador Bruno Ferreira, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do MapBiomas, explica que as estradas facilitam o acesso a áreas antes isoladas e podem estimular a expansão da agropecuária. O processo também ocorre por meio da abertura de ramais que avançam sobre áreas florestais.
No caso da BR-319, o pesquisador alerta que a pavimentação pode estimular novas frentes de ocupação e aumentar a pressão sobre áreas preservadas. Por isso, defende a avaliação dos impactos indiretos da obra, além do fortalecimento da fiscalização ambiental e do planejamento territorial.
Amazônia perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa
Apesar de o bioma ter registrado, em 2025, o menor índice de desmatamento da série histórica mencionada no levantamento, as perdas acumuladas continuam expressivas. Desde 1985, a Amazônia perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa, enquanto a área ocupada pela agropecuária cresceu 440%.
Em 2025, a atividade agropecuária ocupava 65,3 milhões de hectares, o equivalente a 15,5% de toda a Amazônia. A maior parte correspondia a pastagens, com 50,8 milhões de hectares, ou 12% do bioma. A agricultura ocupava outros 8,6 milhões de hectares, cerca de 2%.
Segundo Bruno Ferreira, é importante distinguir o desmatamento registrado em determinado período da perda acumulada de vegetação nativa ao longo de quatro décadas. Os dados históricos também evidenciam a conversão de áreas florestais para atividades agropecuárias.
Terras indígenas preservam quase 99% da vegetação nativa
O levantamento também revela diferenças significativas conforme a categoria de ocupação do território. Em 2025, as terras indígenas mantinham 98,9% de sua área coberta por vegetação nativa, reforçando a importância desses territórios para a conservação ambiental.
Nos imóveis rurais, a agropecuária ocupava 38,8% da área. Já nas terras públicas ou sem registro fundiário georreferenciado, a vegetação nativa correspondia a 76,4%, enquanto a agropecuária representava 21,5%.
Para o pesquisador, conter o avanço do desmatamento exige fortalecer a fiscalização, combater a grilagem, aprimorar o controle do uso da terra e incentivar a recuperação de áreas degradadas e a produção em áreas já abertas.
Amacro concentra perdas expressivas
A região conhecida como Amacro, que reúne áreas do Amazonas, Acre e Rondônia, também aparece entre os pontos de atenção. Desde 1985, o território perdeu cerca de sete milhões de hectares de vegetação nativa, uma redução de aproximadamente 16%.
Embora represente 11% da área do bioma, a região concentra 13% da perda de vegetação nativa registrada na Amazônia no período. Entre 2015 e 2025, foram perdidos 2,7 milhões de hectares.
A expansão das pastagens foi expressiva: desde 1985, a área destinada a essa atividade ficou cerca de 15 vezes maior, com acréscimo de 6,6 milhões de hectares.
Diferenças entre os estados e avanço da mineração
Os dados de 2025 também mostram grandes diferenças na proporção de vegetação nativa entre os estados que integram o bioma. O Amapá liderava, com 95,5%, seguido pelo Amazonas, com 94,6%, Roraima, com 92,3%, e Acre, com 84,2%.
Na outra ponta, o Tocantins apresentava 24,6% de vegetação nativa na área do estado inserida na Amazônia. Maranhão, Rondônia e Mato Grosso registravam, respectivamente, 49,8%, 59,1% e 61,7%.
As áreas úmidas amazônicas, que incluem rios, lagos, florestas alagáveis, campos alagados, mangues e apicuns, somavam 59,8 milhões de hectares em 2025. O total representa uma redução de 2,7 milhões de hectares, ou 4,4%, em relação a 1985. Das áreas úmidas convertidas para outros usos nesse intervalo, 60% passaram a ser pastagens.
A mineração também ampliou sua presença. A atividade ocupava 32 mil hectares em 1985 e chegou a 440 mil hectares em 2025, quase 14 vezes mais. Desse total acumulado, 47% foi aberto na última década.
Os dados do MapBiomas mostram que, apesar das diferenças entre rodovias e territórios, a pressão sobre a floresta continua sendo um desafio para a conservação da Amazônia. No entorno da BR-319, a manutenção da vegetação nativa destaca a importância de políticas de ordenamento territorial e fiscalização para evitar que novas frentes de ocupação avancem sobre áreas ainda preservadas.

