A preservação da língua e dos conhecimentos tradicionais do povo Kambeba ganhará um novo reforço no Amazonas. No dia 27 de outubro, a Gramática da Língua Kambeba receberá uma edição impressa, com o objetivo de ampliar o acesso à obra e contribuir para a transmissão desse patrimônio cultural às novas gerações.
O livro foi desenvolvido pelo professor Raimundo Cruz da Silva Kambeba e pelo professor e doutor em Linguística Ademar dos Santos Lima. A iniciativa de impressão e entrega é da jovem embaixadora de impacto social Joana Gastaldi, em parceria com a Amazônia B, o Instituto Ecoleta e a comunidade indígena Três Unidos, localizada às margens do rio Cuieiras.
Também conhecido como Omágua, o povo Kambeba tem uma trajetória historicamente ligada aos rios da Amazônia. O registro de sua língua contribui para preservar histórias, conhecimentos e elementos fundamentais de sua identidade cultural.
A iniciativa ocorre durante a Década Internacional das Línguas Indígenas, estabelecida pela Organização das Nações Unidas para o período de 2022 a 2032, que incentiva ações de documentação, revitalização e valorização desses idiomas.
Língua indígena na educação
Para o professor Raimundo Kambeba, a gramática também é uma ferramenta de fortalecimento da educação intercultural, ao aproximar os conhecimentos tradicionais dos conteúdos trabalhados nas escolas.
Segundo ele, é importante que crianças e jovens tenham acesso a novos conhecimentos sem perder a conexão com a própria história, língua e identidade.
A proposta é contribuir para uma formação que reconheça os saberes indígenas como parte importante da educação e da diversidade cultural amazônica.
Cultura e desenvolvimento sustentável
A valorização dos conhecimentos tradicionais também está relacionada à conservação ambiental, à bioeconomia e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Para Bellmond Viga, diretor executivo da Amazônia B, reconhecer a história e a cultura dos povos da região é fundamental para fortalecer o protagonismo dos próprios amazônidas no desenvolvimento do território.
A iniciativa busca aproximar o conhecimento ancestral das possibilidades e dos desafios contemporâneos, valorizando a cultura local como parte da construção de um modelo de desenvolvimento sustentável.
A jovem embaixadora de impacto social Joana Gastaldi também destaca a importância de ampliar o acesso à gramática para que a língua e os conhecimentos do povo Kambeba continuem sendo transmitidos às novas gerações.
Comunidade Três Unidos tem trajetória de resistência
A comunidade indígena Três Unidos começou a se formar em 19 de novembro de 1991, quando Waldemir, a esposa, Babá, e os cinco filhos deixaram Manaus em direção à região do rio Cuieiras.
Nos primeiros anos, a família enfrentou dificuldades de moradia e alimentação, além de preconceito relacionado à identidade indígena. Em 1993, Waldemir se identificou como Kambeba ao guia de turismo Rubem, que ofereceu trabalho à família e orientou Babá na produção de artesanato.
No ano seguinte, diante da necessidade de garantir a escolarização das crianças, os moradores se mobilizaram para iniciar as atividades educacionais. Raimundo Kambeba, então com 14 anos, assumiu o ensino das primeiras crianças da comunidade.
Ao longo dos anos, Três Unidos conquistou melhorias nas áreas de saúde e educação, além de oportunidades de geração de renda por meio do artesanato indígena e do turismo de base comunitária.
Atualmente, a comunidade reúne 42 famílias e conta com escolas, posto de saúde, energia solar e espaços dedicados ao turismo e à cultura Kambeba.
A edição impressa da gramática representa mais uma iniciativa para fortalecer a identidade do povo, preservar sua língua e manter vivos os conhecimentos ancestrais entre as novas gerações.

